sexta-feira, maio 11, 2007

Síntese dos principais pontos debatidos no Grupo de Trabalho R3

Neste texto damos conta dos principais pontos que têm sido debatidos nas reuniões periódicas do Grupo R3 – Riscos Reduzidos em Rede, que é constituído por 11 equipas de Redução de Riscos da zona Norte de Portugal. Do início de 2005 até Janeiro de 2007 o grupo realizou 9 reuniões, havendo uma presença média de sete equipas por reunião. Os encontros têm decorrido rotativamente nas sedes das equipas, promovendo-se deste modo o conhecimento mútuo mais aprofundado de cada uma.

Os temas principais que foram discutidos foram os seguintes:


Elaboração de um documento a enviar ao presidente do Instituto da Droga e da Toxicodependência em que se dava conta da situação actual das Equipas de Redução de Riscos, identificando vários problemas e dificuldades ligados tanto à intervenção no terreno como à ligação destas equipas às estruturas que aprovam e financiam os projectos de intervenção.


Na reunião do dia 8 de Abril de 2005, realizada durante o seminário Redução de Riscos a Três Dimensões – RR3D, organizado no Porto pela Equipa GIRUGaia, esteve presente o Thierry Charlois, que é um dos responsáveis do projecto Technoplus, pioneiro da Redução de Riscos nos contextos festivos, transmitindo a sua experiência nesta área, falando no historial deste tipo de intervenção.


Em Maio de 2005 fez-se uma discussão em torno da definição do conceito de Redução de Riscos, procurando consciencializar quais as marcas mais características desta política de saúde e discutindo os princípios gerais que a suportam.
Divulgou-se a conferência Latino Americana sobre toxicodependências, um dos principais encontros internacionais na área da Redução de Riscos a realizar em Barcelona no Verão de 2005, discutindo formas de apoio à deslocação de alguns dos técnicos a este evento.
Uma das reuniões foi dedicada à discussão do perfil do técnico de Redução de Riscos, utilizando a metodologia de discussão em pequeno grupo, seguida de debate no grande grupo.

O tema de discussão dos financiamentos das equipas de Redução de Riscos e os hiatos verificados entre a data limite dos projectos e a sua reaprovação tem sido um tema constantemente debatido em várias reuniões. Decide-se, por isso, dar conta desta preocupação numa audiência solicitada ao presidente do Instituto da Droga e da Toxicodependência e que viria a ser realizada em Setembro de 2005. Nesta reunião, informámos o Dr. João Goulão da actividade do grupo R3, tendo sido estimulados a fazer-lhe chegar os nossos debates e reflexões.
Foi realizada uma discussão sobre o papel da Redução de Riscos no conjunto das estratégias de intervenção no fenómeno droga. Esta discussão visa elaborar um documento a enviar ao IDT, representando o contributo do R3 para a reflexão acerca do Plano Estratégico 2005/2008, que se encontrava em fase de elaboração.


Em Setembro de 2006 inicia-se o blog Rabiscos sobre Redução de Riscos, que pretende ser um instrumento de comunicação entre as equipas e também com todo e qualquer interessado na temática das drogas e em particular, da Redução de Riscos.


Em Outubro de 2006 decidiu-se elaborar um poster e uma comunicação para apresentar no 2º seminário RR3D, a realizar em Dezembro de 2006, no espaço cultural Maus Hábitos, definindo-se o grupo de trabalho para essas tarefas.


A partir de Janeiro de 2007 em cada reunião há uma equipa encarregada de expor em pormenor o seu trabalho, as características da zona em que intervém e da população alvo, serviços prestados, etc. Em Março de 2007 realizar-se-á a CLAT Virtual, tendo sido decidido pelo grupo R3 apresentar uma comunicação, bem como divulgar esta iniciativa em Portugal.
Ainda na reunião de Janeiro de 2007 foi levantada a questão da violência policial sobre toxicodependentes de rua. Foi consensual entre as várias equipas que estes episódios ocorriam nas áreas em que elas intervêm, tendo-se decidido fazer um grupo de trabalho para elaborar um guião para recolha de informações a este respeito, que deverão servir para incentivar uma atitude preventiva deste tipo de ocorrências junto das autoridades policiais.
Um outro grupo de trabalho ficou encarregue de elaborar um guião que uniformizasse entre as várias equipas do R3 uma recolha sistemática de informação de terreno, cujo objectivo é a produção de conhecimento a partir da intervenção.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

SILÊNCIOS E RUÍDOS NO FENÓMENO DA DROGA



1. NADA SOBRE NÓS SEM NÓS
Noutros países, a redução de riscos (RR) foi um movimento iniciado com uma contribuição importante dos próprios interessados, os utilizadores de produtos psicoactivos ilegais. A Junkiebond, associação holandesa de utilizadores de heroína, foi a pioneira da troca de seringas em meados dos anos 80. A Technoplus, de Paris, avançou nos anos 90 com a intervenção em ambientes festivos. Um dos seus membros, Jean Marc Priez, foi passado algum tempo acusado formalmente de incentivo ao consumo de drogas, desenvolvendo-se em torno desta acusação um grande debate, que ultrapassaria as fronteiras francesas, sobre a intervenção em RR e sobre o direito do Estado a regulamentar os estilos de vida dos cidadãos. Priez seria absolvido, reconhecendo-se deste modo por via legal a legitimidade do trabalho de RR. Conviria agora, a meu ver, proceder com o mesmo escrúpulo e sentar no banco dos réus psiquiatras que induzem o consumo continuado de vários psicoactivos, abrindo a porta a dependências farmaco-legais…
A emergência das políticas RR, olhada pelo lado da sua promoção através dos próprios utilizadores, pode ser vista como um movimento social no campo da afirmação dos direitos civis sobre a ingerência do Estado, que no campo das drogas tem sistematicamente sido gerida por cúpulas políticas e técnicas que não ouvem os interessados. Daí o slogan Nada sobre nós sem nós

2. TUDO SOBRE NÓS SEM NÓS
Em Portugal, esta capacidade de auto-organização de actores sociais cujas práticas são alvo de desconfiança ou de censura morais é débil. Podíamos discutir as razões deste imobilismo. Por agora, sublinhemos apenas o facto de os utilizadores de drogas ou os trabalhadores sexuais não terem associações, não tendo por isso modo de se fazerem representar na discussão pública ou na elaboração de documentos estratégicos que visam o controle dos seus comportamentos, mesmo quando relevam exclusivamente da esfera privada. Dito doutro modo, esta ausência de auto-organização tem como consequência a impossibilidade de controlarem as abundantes representações sociais que circulam a seu respeito, normalmente baseadas em simplismos grosseiros que se prestam ao espectáculo mediático. Em suma, em Portugal tem vigorado o Tudo sobre nós sem nós…

3. O GRUPO R3
Enquanto a auto-organização dos utilizadores de drogas não acontece, que canais podem ser activados para que eles não estejam silenciados no meio do ruído que a droga provoca?
Quando ao facto de se ser utilizador se junta o de ser toxicodependente, quando a este facto se junta o de se ser junkie, passando a habitar o lado marginalizado da vida social, que possibilidade se tem de se ser escutado? Quem pode estar mais perto da palavra dos mais estigmatizados nas drogas? Os que convivem com eles, através da intervenção em equipas de primeira linha, naqueles que passaram a ser os seus contextos de vida à medida que se foram fixando em torno do estilo de vida junkie.
Está agora a subir de tom o debate sobre as salas de consumo assistido e deviam ser estes os que agora tomam a palavra, mas o que está já a acontecer é a apropriação politico-partidária das medidas RR, como sempre tem acontecido no campo das drogas: o reino dos aprioris, das tácticas, da argumentação sustentada no preconceito.

Luís Fernandes - Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto

sexta-feira, janeiro 19, 2007


1ª CONFERÊNCIA LATINA VIRTUAL

JUVENTUDE, SAÚDE E CULTURA DO RISCO

Alianças e Redes

www.clatvirtual.com

1-31 de Março de 2007

Apresentação

O Grup Igia anuncia a Primeira Conferência Latina em formato virtual (CLAT Virtual 1) que terá lugar entre os dias 1 e 31 de Março de 2007 no sítio www.grupigia.com/clatvirtual1 da internet.
Depois do bom acolhimento das três conferências presenciais realizadas até à data (CLAT1, Barcelona 2001; CLAT2, Perpignan 2003; e CLAT3, L’Hospitalet de Llobregat, 2005) propomos uma evolução no conceito e na aplicabilidade do modelo de redução de danos. Trata-se de transpor o âmbito das toxicodependências aplicando as metodologias e aprendizagens a outros comportamentos e cenários de risco para a saúde que se produzem nas nossas cidades. Referimo-nos principalmente a: sexualidade, migrações, usos de drogas, precariedade e sua relação com outras lógicas como a exclusão, a discriminação, a acessibilidade…
Esta ampliação da perspectiva constrói-se através de alianças entre diversos colectivos sociais que cooperam numa dinâmica de redes. Referimo-nos especialmente a equipas de intervenção e planificação, a académicos, a ONG`s e às restantes forças sociais.

Participantes

A CLAT convoca planificadores, técnicos e profissionais; docentes, investigadores e estudantes; movimentos associativos, colectivos sociais, grupos de representantes das problemáticas em questão (utilizadores de drogas, trabalhadores sexuais, imigrantes, etc); instituições públicas e privadas, fundamentalmente relacionadas com fenómenos sociais, saúde, juventude...


Inscripciones y Plazos

A inscrição é gratuita. Pode realizar-se a partir do dia 1 de Fevereiro no site da web. Cada participante receberá uma contra-senha de acesso.


Estrutura da Conferência

A conferência compõe-se de:
1 sessão inaugural
16 mesas redondas com chats de debate
Cursos on line
Foruns e chats temáticos
1 sessão de encerramento



Envío de comunicações

Os idiomas oficiais da conferência são o castelhano, francês, italiano e português.

As comunicações devem apresentar actividades nacionais ou internacionais de colaboração em rede de diversas instituições, seus membros, objectivos, funcionamento, pontos fortes e pontos fracos, perspectivas de ampliação ou replicação noutros territórios, etc.

As temáticas devem estar relacionadas com o título da conferência “Juventude, saúde e cultura do risco: Alianças e redes” e que se relacionem com os comportamentos e cenários de risco tanto a nível individual como social.

Neste quadro são de especial interesse os processos de saúde-doença, as políticas públicas, a investigação e formação académica e os cenários emergentes.

Devem ser enviados antes de 15 de Fevereiro depois do preenchimento o formulário correspondente. O texto será composto por um breve resumo (máximo 100 palavras) e por um texto (máximo de 1.000 palavras). Os autores autorizam a Grup Igia a utilizar os seus textos no quadro desta conferência.

Funcionamento

Cada segunda-feira do mês de março (5, 12, 19 e 26) terão lugar quatro mesas, cada uma com quatro comunicações, abrindo-se um forum de debate para cada mesa que funcionará durante a semana. Na sexta-feira realizar-se-á um chat com os autores das comunicações. No encerramento da mesa realizar-se-á um resumo em cada idioma que será enviado a todos os participantes.

Instituições colaboradoras

Todo o colectivo, associação, federação, instituição que deseje colaborar na CLAT-V, contribuindo com reflexões ou colaborando na difusão do evento pode aderir preenchendo o formulário de adesão.

Secretaria

Grup Igia. Enric Granados 116. 08008 Barcelona. Espanha.
info@grupigia.com www.grupigia.com

quinta-feira, janeiro 04, 2007

QUESTIONAR A NATURALIDADE DA ASSOCIAÇÃO DROGA-DOENÇA

1. SOBRE AS ORIGENS
Qualquer recuo, seja histórico (recuo no tempo) seja antropológico (recuo no espaço, estudo doutros usos e costumes), nos revela um outro caminho para ler as experiências de alteração voluntária da consciência que não o caminho da doença. Exemplifiquemos:
- o “problema da droga”, ainda muito antes de ter esse nome e de à droga se chamar droga, começa a configurar-se durante a conquista ibérica da América do Sul. Revela-se já aí o jogo das dominações entre colonizadores e colonizados, em que a folha de coca desempenhou papel legitimador da repressão espanhola sobre determinados segmentos sociais do povo inca e a respectiva opressão sobre os rituais ancestrais que constituíam o centro simbólico da sua cultura.

- este jogo culminou no século XIX, com outros actores, outra geografia e outras razões – agora sobretudo comerciais, cujo episódio forte são as Guerras do Ópio. Se as guerras tivessem virtudes, a desta era a de deixar claro algo que se mantém até à actualidade: que certos psicoactivos são o centro de relações comerciais e de oportunidades geo-estratégicas que se passam fora dos nossos olhares, enquanto andamos entretidos com o problema dos consumidores disto ou daquilo, pactuando ingenuamente com uma visão que reduz o problema da droga a uma questão individual, da vontade ou da sua fraqueza, da personalidade, da motivação, da perturbação psíquica.

- também nesse século, a aplicação pela medicina de princípios activos cujo isolamento se deve aos avanços da química é feito na busca do alívio para o sofrimento – e é este emprego que, iatrogeneizando, engendra o problema médico da adição. O remédio, afinal, encerrava também o veneno, maldição que traçará a sina das substâncias psicotrópicas até aos nossos dias. Thomas Szazs exprimiu-o eloquentemente quando afirmou que a história da droga é um capítulo da história geral do medicamento. É por esta via que os psicotrópicos se ligam ao registo, central na modernidade, da saúde e que os seus usos fora do controlo das instâncias legitimadas para a gestão da saúde são codificados como transgressão - mas uma transgressão às próprias leis da saúde, pagando com a doença este desrespeito. Não esqueçamos, portanto, que pharmakon é remédio, mas também veneno… Brincar com as drogas é brincar com o fogo e o toxicodependente é aquele que se queimou

- persiste nos nossos dias esta dupla face do pharmacon. A natureza ambígua do medicamento, e portanto das práticas que assentam no seu uso, é posta em relevo pelas pastilhas “para dormir”, cujo paradigma é o rohypnol: nas mãos do médico são remédio, fora delas, à solta no mercado negro, são drunfos; a metadona à solta também é droga, nos centros de tratamento é terapêutica; um adicto a um produto de rua é um toxicómano, um adicto a um produto obtido na relação médica é um paciente – Tomkiewick disse um dia que a diferença entre a água e a água benta não é química, mas simbólica…

- repressão da marijuana e do ópio nos EUA para controlar as “populações perigosas”: os fluxos migratórios intensos para os EUA e as tensões que geraram conduziram à explicação simplista de que os estrangeiros eram perigosos porque traziam consigo umas substâncias capazes de lhes alterar perigosamente o comportamento. Este processo é conhecido como condensação simbólica: concentram-se em torno dum produto – a marijuana nos mexicanos, o ópio nos chineses, o álcool nos irlandeses – propriedades maléficas que seriam as responsáveis pelo mau comportamento das colónias migrantes nas grandes cidades dos EUA. Reprimir tais produtos apresentava-se como a fórmula mágica para a resolução dos problemas colocados pela sua presença desordeira.
A condensação simbólica é, pois, um elemento instigador da repressão policial e judicial do estrangeiro e uma forma típica, nessa altura como hoje, dum certo pensamento político utilizar o álibi da droga para produzir controlo social repressivo.


2. A CONSTRUÇÃO DA DROGA-DOENÇA
Em síntese, é só com o desenvolvimento da medicina e das políticas criminais modernas, em conjunto com os modelos consumistas próprios ao individualismo nas sociedades de massas, que surge o psicotropismo em grande escala e os seus efeitos disfuncionais, que virão a ser codificados como patologia. Dito doutro modo, estamos perante a construção social da droga-doença, inscrita de resto numa das contradições das sociedades modernas: liberdade versus perda de autonomia. Esta contradição encerra vários aspectos:
- o modo como a medicina hospitalar expropria o direito a dispor de si, interditando os auto-cuidados e a gestão profana do sofrimento. O “só pode vender-se mediante receita médica”, a “letra de médico” só entendida pelo farmacêutico retirando o seu portador do circuito dos especialistas, a ida de 6 em 6 meses ao psiquiatra para alterar uma gota no cocktail de drogas lícitas, o silêncio do médico quando observa com ar perscrutador as chapas radiológicas ou as nuvens ecográficas, o modo lacónico de responder às perguntas impertinentes do paciente, a longa espera nos corredores hospitalares pelos 10 minutos em que a glória sabedora do médico resolve a consulta – tudo isto são signos do modo meticuloso como fomos retirados dum saber ancestral sobre o nosso próprio corpo e do facto de, na medicina científica, perdermos o lugar de sujeitos limitando-nos a cumprir o de objectos. O nosso corpo, mero lugar da doença, é agora objecto da gestão medico-administrativa da saúde – e, mais preocupante, a gestão médica da doença parece hoje perder terreno para a gestão propriamente dita, numa demonstração clara de que nenhuma área da vida social está protegida do avanço neo-liberal em que tudo é mercado, advento, portanto, da gestão hospitalar da medicina SA.

- o modo como a procura de novas fronteiras de si através dos estados alterados de consciência colide com a perda de autonomia característica das dependências graves. Esta característica do estado aditivo foi lida pelo olhar clínico como incapacidade de gerir o seu próprio destino, isolando esta “evidência” das condições sociais que poderiam sugerir outras evidências, carregadas de denúncia sobre o modo como temos estado a gerir os nossos destinos colectivos. Em paralelo, generalizou sem base científica a perda de auto-controlo própria a um grupo restrito de indivíduos, produzindo a crença de que tal perda era um resultado directo da substância química. Este reducionismo à explicação pela psicofarmacologia desloca-se, entretanto, hoje para o reducionismo à explicação pelas neurociências, de acordo com a moda científica em vigor.
Construindo e difundindo para os leigos a imagem da irresponsabilidade do toxicodependente, o olhar clínico, mesmo se movido por objectivos técnicos e humanitários, acabou por impor nas representações colectivas acerca do “drogado” uma visão que, interiorizada por ele, tem o conhecido efeito da profecia que se auto-cumpre. Enfim, o olhar clínico, cristalizado nas práticas do dispositivo de tratamento, através da sua postura de infantilização do adicto, legitima involuntariamente as políticas repressivas, pois a lei e o interdito têm de governar quem não é capaz de se governar a si. O melhor exemplo do reforço mútuo destes dois planos é facilmente evidenciado se meditarmos no modo como a terapia se tornou coadjuvante da administração das penas (o toxicodependente em consulta como garantia da suspensão duma medida penal), e no modo como a prisão se tornou coadjuvante da terapia (as alas livres de drogas nos estabelecimentos prisionais) – e que dizer desse estatuto híbrido e ambíguo das comissões de dissuasão da toxicodependência?


3. O PODER REVELADOR DO JUNKIE
Reunindo os argumentos expostos até agora, levantámos várias pistas para a afirmação duma mesma constatação: não existe uma aliança natural entre droga e doença. O que a história e a antropologia nos revelam é que esta aliança é uma etapa recente cujas coordenadas se inscrevem nos modos de funcionamento das sociedades ocidentais. Poderíamos encetar várias direcções para a sua demonstração: o modo como os dispositivos de controlo social privilegiaram certos alvos em detrimento de outros (por exemplo hoje o toxicodependente perde terreno para o abusador sexual e o pedófilo, o tratamento daquele perde terreno, no espaço mediático, para a intervenção na violência doméstica e nos maus tratos infantis), a gestão ocidental do prazer e do interdito, a solidariedade entre drogas duras e urbano degradado. Diremos algo sobre esta última, que traz à luz o poder revelador do junkie.
O junkie de rua, progressivamente presente a partir de finais dos anos 80, vem pôr a descoberto a dimensão social como o factor estrutural mais importante na
leitura das trajectórias de utilizadores que culminam na desfiliação e no desabrigo. Este “drogado” não pode ser lido isoladamente, mas no conjunto das chamadas figuras de emergência social, saídas duma conjuntura que provoca o fenómeno dos “novos pobres”. Não dar atenção a esta leitura significa estar fechado ao evoluir das condições económicas e sociais nos países do capitalismo avançado, marcadas pelo desinvestimento do modelo social europeu e consequente dualização (cidade central / cidade periférica, integrados / excluídos, escolarizados / desescolarizados, produtivos / desempregados de longa duração, elites /populações relegadas, europeus / clandestinos…). Este fechamento pode operar com o junkie e com outras figuras da marginalidade o mesmo reducionismo que operou com a figura do toxicómano há duas décadas: ocultando as condições sociais da sua produção, encerrou-o nos dilemas das suas pretensas perturbações de personalidade. No caso vertente, tal operação redundaria na patologização da pobreza e da exclusão.
Será necessário ter em conta, dum modo que seja duma vez por todas inequívoco, que os processos pelos quais se erigiu uma política criminal das drogas ao longo de todo o século XX se contam entre os principais determinantes da associação entre exclusão e drogas (por que estão os mercados de drogas duras em bairros problemáticos? Que processos de estigmatização empurram um utilizador de heroína até à sobrevivência de rua, arrumando automóveis ou engrossando o número dos sem-abrigo? Por que são o junkie e o pequeno dealer os principais contingentes da população prisional?)
A redução de riscos e minimização de danos é a política de intervenção que tem enfrentado o desafio de trabalhar com o junkie de rua. Depois do exposto, resulta claro que o seu modo de intervenção não pode ser guiado pela leitura medico-psicológica, mas por uma lógica de intervenção social de vocação interdisciplinar. A redução de riscos não é uma intervenção periférica cuja missão fosse reconduzir o adicto aos espaços centrais onde se desenvolveria o verdadeiro tratamento. A sua acção pode conduzir a um resultado destes – mas ele não é nem o objectivo nem a razão de ser da política de redução de riscos e minimização de danos. Começaria aqui outro texto… Talvez que os comentários que este suscite o possam ir desenhando colectivamente.

Luís Fernandes - Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto

segunda-feira, dezembro 04, 2006

O Arranque das "Salas de Chuto" II

No início deste ano, escrevia uma crónica no Público a que chamei “o arranque das salas de chuto” (1 Fevereiro 2006). Com o ano quase no fim, a Câmara Municipal de Lisboa acaba de anunciar as duas primeiras salas para breve. Vai intensificar-se o fogo cruzado dos argumentos pró e contra e, para quem esteve atento à RTP1 ontem à noite (30 de Novembro), a saga já começou. Antes dos conteúdos, olhemos para a estrutura do debate: uma jornalista a colocar questões a dois intervenientes, o presidente do IDT e a vereadora do CDS-PP na CML. Dito doutro modo, os dois poderes com mais poder no lançamento de estruturas de RR: o instituto público que coordena as políticas na área das drogas e uma autarquia, cujo papel activo está consagrado desde 2001 no decreto-lei sobre RR. Dito ainda doutro modo, João Goulão, um especialista do fenómeno droga desde há muito, e Maria José Nogueira Pinto, uma política que flutua por todos os temas do social ao sabor da chamada agenda mediática: ontem a reabilitação da baixa-Chiado, hoje as salas de chuto, amanhã o mercado das hortaliças do bairro das Lampeirinhas. Um político, quando fala daquilo que são matérias de especialidade em que não é especialista – e são quase todas, porque o político da actualidade abandonou o que fazia dantes para só fazer política, que é o campo em que se cruzam todos os temas e objectos e discussões –, um político, dizia, reproduz os lugares comuns dos valores em que acredita independentemente da natureza concreta do problema que está em discussão.
Tomo aqui Maria José Nogueira Pinto como exemplificativa dum sector da sociedade que defende a moral tradicional. Os partidos conservadores têm como fundamento ético da sua luta política justamente esta moral – o que não tem rigorosamente mal nenhum, se ela for aberta à discussão dos problemas naquilo que eles são na realidade e não na abstracção de valores que seriam inquestionáveis. A política conservadora é aquela que conserva, quer dizer, que resiste por definição à mudança. Há 20 anos, os políticos conservadores e suas extensões mediáticas resistiam à ideia de que o toxicodependente fosse um doente, porque o registo de longa data a seu respeito era o da delinquência. Hoje, repetem incessantemente que é um doente, e por isso querem reforçar a prevenção e o tratamento em vez de perder tempo em medidas complacentes como as da RR – agora, que andamos há 20 anos a insistir que o modelo da droga-doença é insuficiente para dar conta da real complexidade do fenómeno…
A moral pública conservadora assenta na premissa abstracta de que a droga é má por definição. O problema está justamente na definição: afinal, o que é a droga? Por que não denunciam com a mesma força os lobbies do tabaco e do álcool? Por que é que uma sala de chuto para junkies marginalizados é má e o consumo psicotrópico desenfreado em happenings de elite não é exposto ao olhar crítico da sociedade? Esta moral bate-se por uma sociedade livre de drogas – quer dizer, de certas drogas consumidas por certo tipo de actores sociais. A “sociedade livre de drogas” é um valor inquestionável, que não está portanto à discussão. Esta visão mantém-se à custa de ignorar a realidade do fenómeno psicotrópico tanto ao longo da história (não há sociedades livres de substâncias alteradoras da consciência e da vontade humana de superar os seus limites através da “viagem”). Ou seja, a sociedade livre de drogas enquanto valor e enquanto horizonte utópico não é questionável porque tal visão recusa confrontar-se com o grande questionador deste valor abstracto: a própria realidade social, no seu passado, no seu presente – com toda a certeza, no seu futuro. Em vez de uma sociedade livre de drogas, prefiro lutar por uma sociedade livre. A liberdade, essa sim, pode ser defendida enquanto valor abstracto e é a grande marca identitária do indivíduo inventado pela Modernidade.
Um dos argumentos mais perigosos no debate de ontem, avançado por Nogueira Pinto, é o de que os dois locais onde se instalarão salas de chuto serão sujeitos ao estigma e transformar-se-ão em pólos de atracção de toxicodependentes, gerando tensões nas vizinhanças. Eis um tema clássico, que há dez e quinze anos víamos a propósito da instalação de CATs. Não conheço Lisboa com pormenor e não sei localizar os dois lugares que referiu. Mas penso que haverá o bom senso de escolher lugares onde elas sejam precisas – melhor, urgentes. E se assim for contribuirão para pacificar a zona, para sanitarizar os próprios espaços públicos, para proteger moradores e toxicodependentes.
Nogueira Pinto mostra-se muito preocupada com o tratamento dos toxicodependentes, pensando que a RR acaba por protelar uma decisão pessoal de aderir a um tratamento. Desconhece, obviamente, os números: não sabe, ou não quer ver, que a maioria dos toxicodependentes de longa trajectória não frequentam as estruturas de tratamento e, sozinhos, não as procurarão. Está preocupada com a humanização que representa o ingresso no tratamento, mas não parece incomodar-se com o destino dos que fizeram da rua o seu lugar de permanência, sendo com frequência alvo de agressões, às vezes protagonizadas por crianças e adolescentes destas zonas, às vezes protagonizadas por polícias cuja heroicidade se sente realizada com a agressão de indivíduos incapazes de reacção.Só para acabar (por agora): Nogueira Pinto está preocupada em preservar os cidadãos do impacto negativo das salas de chuto. E por que nunca se preocupou em preservar as famílias que procuram resposta para um filho toxicodependente do negócio das desintoxicações praticado em certas clínicas que combinam altos preços e baixos resultados? E disto, quem nos defende?
Luís Fernandes - Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Univ. do Porto

sábado, outubro 28, 2006

2º Seminário - Redução de Riscos a 3 Dimensões - Dezembro 2006

Ainda que sempre tenham estado presentes ao longo de todas as civilizações, actualmente drogas e sexo transcendem o âmbito do exclusivamente pessoal, para se tornarem “problemas da nossa sociedade”. Se dizemos droga falamos de toxicodependência? Se dizemos sexo falamos de SIDA? O discurso do “flagelo” continua a imperar na definição de políticas e intervenções? Onde se enquadram as políticas de Redução de Riscos e Minimização de Danos? Que função desempenham para o individual e para o colectivo?

Vai realizar-se, nos próximos dias 6 e 7 de Dezembro, o 2º Seminário RR3D – Redução de Riscos a 3 Dimensões, organizado pelo projecto CHECK-IN (Apdes).
Contaremos com a presença de António Escohotado para a Conferência Inaugural. Neste desafio juntam-se também a nós Luís Fernandes (FPCEUP), Eduardo Hidalgo (Energy Control, Madrid), José Júlio Pardo (Sala de Consumo Assistida, Bilbao), entre outros. Vai também haver cinema, poesia e DJs.

Contamos com a presença de todos os interessados em pensar a Redução de Riscos. Há preços especiais para grupos de técnicos de RR!

O Seminário vai decorrer no MAUS HÁBITOS Espaço de Intervenção Cultural
Rua Passos Manuel, 178, 4º andar, 4000-382 Porto

Sede CHECK-IN e contactos para Inscrições
Morada: Alameda Jean Piaget, 100 – 4405-111 Arcozelo Vila Nova de Gaia
Telef: 227 531 106/7
Fax: 227 533 046
e-mail:
check-in@apdes.net

Programa disponível em http://check-in.apdes.net

quinta-feira, outubro 19, 2006

A Administração de Heroína em Zurique

As estratégias interventivas em RR têm em comum uma característica: a sua implementação nunca é pacífica. Os anos 90 assistiram à vulgarização da metadona na rede pública de tratamento da toxicodependência e ao início dos programas de troca de seringas. Da primeira medida disse-se que dava droga aos drogados, da segunda que lhes dava as seringas. As vozes que agitam, no debate público, argumentos de natureza estritamente moral, assente no preconceito e no a priori, são sistematicamente ultrapassadas pelos factos e hoje estas medidas são comuns numa série de países europeus, assentando a sua expansão na eficácia que demonstraram nos campos da saúde pública e da segurança cidadã. 2006 é o ano em que o debate sobre uma outra estratégia de intervenção – as salas de injecção assistida – tem vindo a ganhar consistência e a tornar-se incontornável. Ainda antes de abrir a primeira destas estruturas, antecipamos já aqui o debate seguinte: a administração terapêutica de heroína a dependentes de alto risco que falharam sucessivamente todas as respostas de carácter terapêutico disponíveis. Recuperamos agora um pequeno artigo escrito a partir das notas tomadas numa visita de estudo a um centro de administração de heroína na Suiça, corria o ano de 98. Veio, na altura, publicado no nº 1 do boletim do Observatório Permanente de Segurança do Porto.

A Administração de Heroína em Zurique

“Administra-se um dracma se o paciente deve simplesmente animar-se e pensar bem de si mesmo; o dobro dessa dose se deve delirar e sofrer de alucinações; o triplo se deve manter-se permanentemente louco, administra-se uma dose quádrupla se o homem deve morrer”. Discípulo de Aristóteles

As relações entre as drogas duras e o aumento da criminalidade têm sido amplamente noticiadas e estado na origem, nos últimos anos, de muitos trabalhos de investigação. Nalgumas cidades europeias tem sido desenvolvida uma resposta muito controversa a este problema social: administração de heroína a toxicodependentes.
Em Outubro de 98, a convite do Centro de Criminologia da Universidade de Lausanne ao Centro de Ciências do Comportamento Desviante da Universidade do Porto contactámos directamente com este programa inovador. Ainda que dum modo muito sintético, procuramos transmitir em seguida o essencial que nos foi dado ver.
O programa de distribuição de heroína na Suiça tem 18 clínicas, 3 das quais em Zurique. Destas, duas são para toxicodependentes da cidade e uma para outros (arredores).
O programa pode ser frequentado por toxicodependentes com mais de 20 anos, com pelo menos dois de heroína intravenosa e sucessivos falhanços de tratamento (mais de 10 falhados).
Esta experiência de administração de heroína é possível ao abrigo da legislação internacional que permite administração de drogas para experimentação científica. Não se trata, pelo menos do ponto de vista formal, de legalizar a heroína, mas de fazer experimentação científica.

A Clínica Lifeline

A clínica Lifeline está situada no centro de Zurique, não longe da famosa Spitzsplatz, “santuário” junkie do início desta década. Frequentam-na indivíduos com idade média de 33 anos e cerca de 10 de consumo. Vêm histórias pesadas, às vezes são junkies de rua, e têm com frequência complicações psiquiátricas (esquizofrenia, depressão, etc…). Têm de ser consumidores intravenosos, só em casos excepcionais aceitam fumadores de heroína. Vêm encaminhados pelo dispositivo de assistência.
Há actualmente em todo o país cerca de 800 toxicodependentes neste programa, e neste centro dois grupos de 55. Alguns deles frequentam-no desde o início (1994), outros são reencaminhados para outro tipo de cuidados e, outros ainda, conseguem parar os consumos. Não nos foi referida a taxa de abandono.
A heroína é tomada diariamente. As doses são puras, por via intravenosa ou oral (heroína retard). O utente paga 15 francos (+/- 2000$00), independentemente das doses que fizer. A quantidade de heroína é calculada de modo a não proporcionar narcoses muito evidentes.
Nesta clínica 48% dos utentes têm VIH ou SIDA. A situação é considerada muito grave pela direcção, que atribui à atitude repressiva da polícia um papel importante neste aumento.
Os utentes do programa de heroína injectam-se a si mesmos na presença de um técnico. A falta de privacidade visa impedir rituais de consumo e pretende acentuar a ideia no utente de que se trata de uma acto clínico.

Virtualidades do programa

Do ponto de vista da direcção da clínica, é sublinhado o verdadeiro restauro social que este apoio promove, bem como a evidente melhoria do acompanhamento clínico, tanto das seropositividades como psiquiátrico.
Quanto à reacção social que esta experiência desperta, a opinião pública Suíça tem-se mostrado favorável, prevendo-se o aumento deste tipo de resposta num curto espaço de tempo. Esta atitude deve-se à percepção do aumento da segurança urbana e da redução da criminalidade.
A avaliação do impacto criminológico da administração da heroína tem sido realizada pelo Departamento de Criminologia da Universidade de Lausanne. O seu director confirma, com dados estatísticos, a percepção positiva da opinião pública e salienta a possibilidade de um controle social mais directo dos indivíduos que aderem ao programa.
O programa de distribuição de heroína é uma medida envolta em polémica entre nós – onde é ainda mera possibilidade agitada na discussão de técnicos e políticos. Ao primeiro olhar esta experiência aparece com contornos inovadores e revolucionários. Numa análise mais próxima desempenha afinal um papel na manutenção de status quo da sociedade Suíça: o regresso do ar tranquilo da Spitzplatz, cujas imagens caóticas correram a imprensa de todo o mundo no início da década, é bem o exemplo daquilo que este programa tem ajudado a construir. A heroína retoma a vocação com que a fez nascer, no final do séc. XIX a empresa farmacêutica Bayer: a de medicamento.
Luís Fernandes - Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto